

Naquele dia, eu tinha planejado uma tarde afetiva, marcada por (re)encontros. Olhei para aquelas pessoas, umas sentadas outras em pé, ali na minha frente, e vi muito mais do que pessoas que foram prestigiar o lançamento de um livro (no caso, o meu).
Eu vi histórias, memórias, pessoas que me acompanham desde a infância, pessoas que chegaram em diferentes momentos da minha vida, mulheres que confiaram em mim profissionalmente, colegas, professoras, amigas, familiares.
Alguns daqueles abraços que recebi foram testemunhas de fases de sonho e fases de realidade, fases de escolhas, de mudanças e, também, das minhas próprias transições de carreira.
Então, entre sorrisos e agradecimentos, precisei contar um pouco da história desse livro, porque, curiosamente, ele não começou como um livro. A verdade é que ele foi publicado em julho de 2025, há pouco mais de um ano, com um objetivo muito específico, e por muito pouco não permanecia guardado só pra mim.
O primeiro embrião dele começou a se formar lá em 2018, quando eu e uma grande amiga criamos um projeto sobre carreira e finanças voltado para mulheres. Realizamos em 2019 um workshop que reuniu cerca de cinquenta mulheres e profissionais de diferentes áreas. Foi ali que aquele desejo de trabalhar de forma mais estruturada com mulheres e suas trajetórias profissionais começou a ganhar corpo. Naquela época, chegamos a produzir um pequeno e-book, com algumas orientações sobre carreira e finanças, disponibilizamos o download por um período às interessadas, e ele seguiu guardado numa pasta no computador.
A vida aconteceu.
Vieram nossos primeiros filhos, uma pandemia, outros projetos, outras prioridades…
Até que, em 2022, eu voltei para aquele primeiro embrião e pensei: agora quero falar especificamente sobre transição de carreira. E foi assim que nasceu a primeira versão do que viria a ser este livro. Naquele momento, a proposta era ainda um ebook, que foi distribuído somente para as participantes dos cursos online sobre caminhos de carreira, que realizei naquele ano. Mas percebam aí que ainda faltavam quatro anos de história até chegarmos nos dias de hoje.
Vieram outras travessias pessoais, familiares, parentais e profissionais. E foi depois do nascimento do meu segundo filho que comecei a resgatar alguns sonhos que estavam, digamos, “arquivados”.
Retomei os estudos, os atendimentos, as mentorias e também comecei a olhar com mais cuidado para a minha própria trajetória.
Foi nesse processo que uma mulher muito importante para mim, a minha própria mentora, me incentivou a tirar aquele e-book do computador e transformá-lo em um livro físico. Ela acreditou antes de mim que aquela escrita poderia alcançar outras mulheres.
E, não tão despretensiosamente assim, esse livro também acabou abrindo caminho para um sonho que estava sendo retomado: o doutorado. Afinal, além de um anteprojeto original e bem desenvolvido, uma boa defesa oral desse projeto e alguns requisitos importantes, seria fundamental ter ao menos uma publicação recente, coisa que eu não tinha. Estrategicamente esse seria o meio mais “rápido”: aprofundar a escrita, revisar, organizar, buscar editora e publicar o meu livro. Esse processo final durou cerca de três meses.
Hoje sou autora e também doutoranda em Psicologia Organizacional e do Trabalho.
Mas existe uma parte dessa história que talvez seja a mais importante. Porque, por muito pouco, esse livro não teria sido lançado ao público.
Depois que ele cumpriu seu primeiro objetivo e contribuiu para a minha entrada no doutorado, eu poderia simplesmente ter pensado: pronto. Está feito.
E foi aí que apareceu aquela voz impostora que muitas de nós conhecemos.
“Você vai mesmo se expor assim?”
“Por acaso você é escritora?”
“As pessoas vão julgar suas ideias.”
“Você está disposta a ser criticada?”
“É um livro independente…”
“E se isso prejudicar sua carreira acadêmica?”
Essa voz não estava necessariamente mentindo. Algumas daquelas perguntas eram legítimas. O problema era que ela queria transformar perguntas em motivos para eu não seguir. E foi aí que outras vozes começaram a aparecer.
A Lígia Moreiras, me acompanhou em mentoria. A Laila Carneiro, minha orientadora no doutorado, que me incentivou a inscrever o livro no Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho — e ele acabou sendo selecionado. A minha psicóloga Isabela Couto, que acompanhou todo esse processo comigo.
E tantas outras mulheres da minha vida que, conscientemente ou não, tinham sempre uma palavra, um gesto ou simplesmente um olhar que dizia:
“Siga em frente. Estamos juntas.”
Foi nesse processo que eu entendi que aquelas vozes poderiam até trazer verdades, mas nenhuma delas era absoluta.
Sim, este é um livro independente, foi feito por mim, da escrita, à edição e à capa.
Sim, ele não pretende ser um livro científico.
Sim, ele foi escrito para mulheres que estão vivendo, pensando ou desejando uma mudança em sua trajetória profissional.
E é justamente por isso que eu preciso assumir e me orgulhar dessa autoria. Quero reconhecer o trabalho, a dedicação e a coragem que foram necessários para colocá-lo no mundo. Porque publicar também foi pra mim uma transição de carreira. Foi sair do lugar de “será que eu posso?” para o lugar de “eu fiz”.
Sei que não sou a única a vivenciar esse tipo de dilema… Por isso coloco um pouco dessa reflexão também no livro.
Eu sempre ouvi que escrevia bem, que deveria escrever um livro, que tinha “o dom das palavras”. Talvez eu tenha demorado um pouco para acreditar. Porque, como eu costumo dizer, as palavras sempre me tiveram muito mais do que eu as tenho. Então espero continuar sendo instrumento delas para levar o melhor que eu puder a outras pessoas. Mesmo nas minhas publicações acadêmicas, busco escrever com o cuidado de que possa ser lida e compreendida por todas as pessoas que se interessarem pelo tema, não somente por estudiosos da área.
Eu quis contar a história do livro, muito mais do que o seu conteúdo, porque, no fundo, ela não é apenas sobre um livro. Ela é sobre todas as travessias que fazemos.
Há momentos em que nos sentimos perdidas.
Há momentos em que estamos cansadas.
Há momentos de medo, insegurança e ansiedade diante do novo.
Às vezes tropeçamos.
Às vezes precisamos parar.
Mas também existem aqueles momentos em que uma mão se estende, em que uma voz nos lembra quem somos, em que reacendemos uma luz que estava quase apagada, resgatamos um sonho e percebemos que ele pode, sim, ganhar forma. Porque nenhuma trajetória profissional precisa ser vivida sozinha.
Eu sei que falo de um lugar de privilégios, inclusive por ter tido, em diferentes momentos, acesso a acompanhamento profissional, a pessoas que me orientaram e me ajudaram a enxergar caminhos. Mas também aprendi que rede não é apenas ter alguém que nos ajuda. É também poder ajudar.
Este livro é a minha maneira de estar mais perto. Ele nasceu da escuta de muitas mulheres e agora começa uma nova etapa: encontrar outras histórias, outras trajetórias, outros caminhos.
Se uma única pessoa for tocada por alguma coisa que escrevi, se alguma mulher terminar a leitura acreditando um pouco mais em si mesma, se alguma delas se sentir mais preparada para dar o próximo passo, então ele já terá cumprido seu propósito.
Que nós continuemos juntas, iluminando caminhos, fortalecendo sonhos e impulsionando carreiras.